domingo, 27 de outubro de 2013

Resenha do artigo "Formas de Tratamento no Português Brasileiro: A Alternância Tu/Você na Cidade de Santos – SP"

RESENHA
Maraisy Guedes
O artigo intitulado “Formas de Tratamento no Português Brasileiro: A Alternância Tu/Você na Cidade de Santos – SP”, de Artarxerxes Tiago Tácito Modesto, tem como objeto de estudo o uso das formas de tratamento “tu” e “você” na cidade de Santos, SP, a partir da perspectiva sociolinguística e pragmático-discursiva, presentes no revezamento de tais formas. Pretendendo esclarecer o que leva os falantes a optarem por uma forma, e não outra, tal artigo tem como base a metodologia sociolinguística variacionista de Labov e as ideias funcionalistas de Halliday, onde a análise dos dados, bem como a interpretação dos resultados de cálculos estatísticos, se deram a partir dos resultados de cálculos de frequência e probabilidade presentes no programa Goldvarb.
A análise da alternância entre “tu” e “você” presente no artigo apresenta um estudo sincrônico, embasado em análises quantitativas a partir de dados linguísticos. O autor levantou hipóteses de fatores que possivelmente influenciem os falantes a optar por determinada forma, ao invés da outra, em situações informais de interação. Dentre tais hipóteses, estão presentes: o condicionamento por fatores linguísticos, discursivo-pragmáticos e sociais na escolha de uma das formas, bem como a configuração do contexto conversacional; a escolha pelo “tu” ser provocada por situações de [+ envolvimento], [- monitoramento] e [+ expressividade], enquanto, contrariamente, a escolha pelo “você” ser provocada por situações de [- envolvimento], [+monitoramento] e [- expressividade] etc.
Quanto à abordagem funcionalista utilizada no estudo, o autor explica como se dá sua análise, quais são os seus fatores, a interação linguística e seu objetivo. Ao escolher esta abordagem, o autor leva em conta que o estudo da língua a ser usada precisa ter como base um quadro teórico que considere critérios discursivo-pragmáticos, até porque é defendido no artigo que o uso das formas de tratamento na cidade pesquisada é dependente de fatores deste cunho. O autor explica que a teoria abordada entende a língua como instrumento de comunicação, onde esta não pode ser considerada um objeto autônomo, e sim uma estrutura subordinada às pressões advindas de situações comunicativas, onde tais situações a influenciam. A opção entre “tu” e “você” em Santos depende da configuração de fatores presentes no funcionalismo, como o propósito do ato de fala, os participantes e o contexto discursivo. O autor também deixa claro que não é possível entender determinado fator linguístico sem considerar tanto o sistema social quanto o sistema linguístico que ele pertence, onde a competência comunicativa é posta sob análise. A partir da análise funcionalista, o autor defende que o contexto situacional é importante para um planejamento incipiente acerca da escolha entre formas de tratamento.
Quanto aos aspectos pragmático-discursivos e interacionais, o autor cita Levinson, que afirma que no ponto de vista pragmático leva-se em conta a interpretação da linguagem em uma visão funcional, como também aspectos da fala e do contexto, e nunca a língua isolada de sua produção social. Em seguida, o autor explica como os estudos pragmáticos enxergam os fenômenos linguísticos, citando Hilgert. A partir das sucintas considerações feitas, o autor acredita não ser possível analisar qualquer fato linguístico de forma isolada a seu contexto discursivo ou conversacional, e considera que a língua é uma manifestação social que, além de contribuir para a reprodução e transformação das estruturas sociais, também é mudada por elas.
Partindo para o modelo laboviano, é mostrado que a variação estilística é um aspecto importante, pois trata da alternância de formas linguísticas a partir do contexto da atuação comunicativa. O autor elucida que a variação de estilos não se trata de uma simples escolha individual, pois depende, em grande parte, de determinados fatores. Tais alternativas advêm do que Labov intitula de variação estilística, que tem como fundamento básico a ideia de que o falante não usa a língua do mesmo modo em todas as situações. Sendo assim, aplicado ao estudo proposto, o interlocutor precisa escolher uma forma adequada para uma ocasião específica, em um certo contexto discursivo.
A amostra analisada no artigo é constituída por dados coletados durante dois anos, e a partir da mesma ficou claro que a variação entre “tu” e “você” na cidade de Santos estava presente em contextos muito informais, tanto na fala de jovens quanto de adultos, em interações cotidianas. Assim, o autor explica que não foi possível fazer uso de dados nos modelos variacionistas prototípicos, já que a relação entrevistador – informante não foi entre pares nem simétricas. O autor também discorre sobre as dificuldades quanto ao melhor modo para coletar os dados, onde decidiu trabalhar tanto com a possibilidade de fazer gravações secretas quanto gravações não-secretas, onde de vinte gravações, metade foi secreta e a outra metade foi não-secreta.
Na análise de dados, o autor destacou os grupos de fatores que foram controlados durante a pesquisa. São eles: variáveis sociais (gênero, faixa etária e escolaridade), variável linguística (função sintática da forma de tratamento) e variáveis discursivas (referenciação, monitoramento e expressividade do ato comunicativo). Entretanto, de todos estes grupos, apenas os fatores gênero e faixa etária não foram considerados relevantes para a escolha das formas de tratamento.
Para a exposição dos cálculos estatísticos foi usada a ordem de seleção do programa, pois o autor explica que dessa forma a interpretação dos resultados seria mais apropriada para melhor entender como se dá a alternância pesquisada. Em tabela, o autor colocou a quantidade de ocorrências de “tu” e de “você”, seguida do total de ocorrências. A partir disso, foi considerada a diferença entre a quantidade de ocorrências de “tu” e de “você”, onde houve quase o dobro de ocorrência de “você”. O autor destaca um fato importante para a pesquisa: apesar de “tu” ser uma marca linguística da cidade de Santos, através da pesquisa foi possível perceber que não é esta a preferência geral. Também foi possível notar, pelo fator variável discursivo monitoramento da fala, que as ocasiões que envolvam menor monitoramento dos interlocutores favorecem o aparecimento do “tu”, enquanto o contexto mais monitorado favorece o uso de “você”, confirmando, assim, a hipótese inicial do autor.
Os dados mostrados no artigo também deixam claro que o uso do “tu” tem uma marca mais informal e de maior envolvimento entre os falantes. O autor destaca que a utilização do “tu” tem uma certa inconsciência no uso diário dos falantes. Além disso, o autor também resolveu questionar alguns informantes sobre o uso do “tu” e do “você”, que foi, no mínimo, interessante, pois alguns disseram não usar o “tu” comumente, como outros disseram não usar nunca, apesar de depois alguns reconhecerem que usam ao falar com amigos ou pessoas íntimas. A partir de tais dados, o autor mostra que o uso do “tu” se trata de uma questão de valor social, em que o uso de tal forma pode indicar tanto informalidade quanto “erro” na visão dos informantes.
O autor dá uma maior ênfase ao uso do “tu” em Santos justamente por esta ser uma marca linguística da cidade, como dito anteriormente. Assim, ele nota que, através do fator expressividade, que, por sinal, foi um dos mais relevantes, o uso do “tu” é bastante frequente em situações expressivas, quando o falante pretende ser mais incisivo na situação de fala. Já o uso de “você” nestes mesmos contextos expressivos não são favorecidos.
Quanto ao fator referenciação, o autor, sucintamente, a partir de dados em tabela, conclui que a referência direta propicia o uso de “tu” em contextos em que há relações de igualdade, já quanto ao “você” o uso não é favorecido nesta mesma referenciação. Se tratando de referenciação indireta e indeterminada, a forma “tu” não é favorecida, sendo o uso de “você” bem mais favorecido.
Partindo de dados quanto à função sintática da forma de tratamento, bem como pesquisa em diferentes autores, o autor reconhece que “você” está se expandindo cada vez mais nacionalmente, e em breve poderá até ser um pronome de segunda pessoa, remodelando o sistema pronominal oficial brasileiro. Assim, ele completa afirmando que a função objetiva “tu” predomina sobre as outras formas quanto à frequência de uso, enquanto na função subjetiva, o “você” prevalece quanto aos demais. É importante destacar que o autor procura sempre relacionar os fatores para chegar a uma conclusão a partir dessa interligação (como, por exemplo, cruzar o fator função sintática com o fator expressividade), sempre fazendo uma comparação e mostrando seus resultados, como também procurou mostrar não só o uso do “tu” e do “você, mas deixar claro que o uso do “te” também é comum em substituição ao “você” (o autor também salienta que a forma “lhe” não ocorreu em momento algum) como no seguinte exemplo exposto pelo próprio autor: em Santos, as pessoas optam por falar “ai se você começar a atirar ele começa a te metralhar...”, e não “ai se você começar a atirar ele começa a metralhar você”.
Quanto ao fator escolaridade, o autor mostra a frequência e o peso relativo do uso de “tu”, e, a partir dos dados, afirma que os falantes com menor grau de escolarização têm mais chance de usar o “tu” em seu discurso. Por outro lado, os falantes com maior grau de escolarização procuram evitar o uso de tal forma.
Apesar de o fator gênero ter sido considerado irrelevante em tal pesquisa, o autor sugere que, em Santos, é possível que haja uma neutralização do uso de “tu” quanto ao gênero. Como possível explicação, o autor afirma que pelo fato de, em Santos, os homens e as mulheres terem a possibilidade de orientar sua conversação sem se limitar ao valor social, numa relação recíproca, é possível que se dê essa neutralização. Quanto ao fator faixa etária, que também foi considerado irrelevante, o autor realça a importância de pensar que a alternância entre “tu” e “você” também pode ser uma variável estável, não descartando a possibilidade de que o processo de mudança ainda pode ser desenvolvido. É ressaltado que, a partir das reflexões feitas ao longo do artigo, atualmente, no português de Santos, não há sinais de processo de mudança linguística onde o “tu” possa substituir o “você” ou vice-versa.

O autor finaliza seu artigo declarando que a análise feita tanto confirmou quanto contestou hipóteses lançadas. Ele conclui que os falantes de Santos tem maior probabilidade em usar a forma “tu” em ocasiões informais, porém seu uso não ultrapassa estatisticamente o uso de “você”. Ele também conclui que a forma objetiva “te” é a mais produtiva, muitas vezes revezando-se com “tu” e “você” em um mesmo discurso. Encerrando, vê-se que ambas as formas permanecem bem ativas no falar de Santos, havendo uma linha primorosa demarcando um ou outro uso, também não descartando a ideia de que, apesar de não haver mudança em progresso, pode haver uma mudança linguística de transição para determinada forma pronominal definitivamente.

2 comentários:

  1. RESENHA SOBRE O ARTIGO “TU, VOCÊ, CÊ, e OCÊ NA VARIEDADE BRASILIENSE”
    Jose Ricardo Bispo de Castro

    O referente artigo apresentado é fruto de uma pesquisa sociolingüística sobre os pronomes de segunda pessoa, com amostra de falas da variedade lingüística encontrada na região de Brasília e em algumas regiões administrativas que a circundam. Foi uma pesquisa que teve com base teórica a Variação Lingüística delineada por WEINREICH, LABOV & HERZOG. que assumem como premissas básicas a heterogeneidade lingüística ordenada e a necessidade do lingüístico e do não lingüístico para o entendimento pleno da variação e da mudança lingüística. Que é um fator de mudança diária, motivo pelo qual as pesquisas são importantes para os arquivos dessa variação tão rápida da língua.
    Primeiramente os autores da pesquisa fazem uma retomada histórica de Brasília e como foi a formação para a construção da cidade, tendo como parâmetro os candangos que foram para Brasília na época de sua construção. Essa perspectiva é bastante interessante para o trabalho sociolingüístico porque, na época, pessoas de várias regiões do país foram para Brasília para ajudar na construção da Nova Capital da República. Resumidamente, a pesquisa feita por estes pesquisadores apontam que, predominantemente, Brasília foi ocupada por nordestino, com 41,45%, em segundo lugar veio o sudeste com 30,72%, seguidos do centro-oeste com 22,75%, o sul com 1,98% e por último o norte com apenas 0,92%. Esses dados têm impactos diretamente na maneira de falar dos moradores da cidade de Brasília, tanto para os que lá chegaram como para os que lá nasceram. Tendo em vista que a sociedade em que estamos inseridos é fator fundamental para o modo de falar que adotamos, é uma característica humana.
    A pesquisa foi dividida em grupos para abarcar melhor todas as variantes dependentes, assim foram usadas pessoas dos sexos femininos e masculinos, com diferentes posições sociais e com idades distintas. As cidades citadas na pesquisa foram Brasília, Taguatinga e Ceilândia, estas se diferem pelo poder econômico, social e cultural. Brasília com maior poder aquisitivo, com pessoas de classe alta, Taguatinga como classe média e Ceilândia, a cidade mais populosa do DF, como a cidade de classe baixa. Outro delineador foi a faixa etária dos informantes que foram divididos em: 13-19 anos; 20-29 anos e 30-48 anos.
    Dados todos esses referenciais conclui-se que os homes com menores idade entre 13-19 anos tem maior incidência de usar o tu (pronome de segunda pessoa) em situações diárias de fala em um percentual de 41,5%, enquanto que as meninas da mesma faixa etária produzem esse pronome percentualmente em 22,6%. Na considerada, idade intermediária , 20-29 anos, os homens continuam na frente com 17,4% com relação as mulheres que atingem o total de 9,7%. Interessante a pesquisa que descobri-se que na última faixa etária pesquisada e apenas 5,1% dos homens continuam usando o “TU” enquanto as mulheres tiveram índices zerados 0,0%.
    Compreende-se então, que o uso do “TU” pode ter relação com a idade, o grau de instrução e a classe social a que pertence o informante, visto que com menos idade, menos instrução educacional nos temos e com o passar dos anos tendemos a avanços educacionais e por este motivo usamos a maneira mais formal e culta para se dirigir a terceira pessoa, usando o “VOCÊ” em detrimento do “TU”. Vale salientar também que tanto em Brasília como nas Regiões Administrativas o uso do “TU” prevalece.

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  2. RESENHA SOBRE O ARTIGO “TU, VOCÊ, CÊ, e OCÊ NA VARIEDADE BRASILIENSE”
    Jose Ricardo Bispo de Castro

    O referente artigo apresentado é fruto de uma pesquisa sociolingüística sobre os pronomes de segunda pessoa, com amostra de falas da variedade lingüística encontrada na região de Brasília e em algumas regiões administrativas que a circundam. Foi uma pesquisa que teve com base teórica a Variação Lingüística delineada por WEINREICH, LABOV & HERZOG. que assumem como premissas básicas a heterogeneidade lingüística ordenada e a necessidade do lingüístico e do não lingüístico para o entendimento pleno da variação e da mudança lingüística. Que é um fator de mudança diária, motivo pelo qual as pesquisas são importantes para os arquivos dessa variação tão rápida da língua.
    Primeiramente os autores da pesquisa fazem uma retomada histórica de Brasília e como foi a formação para a construção da cidade, tendo como parâmetro os candangos que foram para Brasília na época de sua construção. Essa perspectiva é bastante interessante para o trabalho sociolingüístico porque, na época, pessoas de várias regiões do país foram para Brasília para ajudar na construção da Nova Capital da República. Resumidamente, a pesquisa feita por estes pesquisadores apontam que, predominantemente, Brasília foi ocupada por nordestino, com 41,45%, em segundo lugar veio o sudeste com 30,72%, seguidos do centro-oeste com 22,75%, o sul com 1,98% e por último o norte com apenas 0,92%. Esses dados têm impactos diretamente na maneira de falar dos moradores da cidade de Brasília, tanto para os que lá chegaram como para os que lá nasceram. Tendo em vista que a sociedade em que estamos inseridos é fator fundamental para o modo de falar que adotamos, é uma característica humana.
    A pesquisa foi dividida em grupos para abarcar melhor todas as variantes dependentes, assim foram usadas pessoas dos sexos femininos e masculinos, com diferentes posições sociais e com idades distintas. As cidades citadas na pesquisa foram Brasília, Taguatinga e Ceilândia, estas se diferem pelo poder econômico, social e cultural. Brasília com maior poder aquisitivo, com pessoas de classe alta, Taguatinga como classe média e Ceilândia, a cidade mais populosa do DF, como a cidade de classe baixa. Outro delineador foi a faixa etária dos informantes que foram divididos em: 13-19 anos; 20-29 anos e 30-48 anos.
    Dados todos esses referenciais conclui-se que os homes com menores idade entre 13-19 anos tem maior incidência de usar o tu (pronome de segunda pessoa) em situações diárias de fala em um percentual de 41,5%, enquanto que as meninas da mesma faixa etária produzem esse pronome percentualmente em 22,6%. Na considerada, idade intermediária , 20-29 anos, os homens continuam na frente com 17,4% com relação as mulheres que atingem o total de 9,7%. Interessante a pesquisa que descobri-se que na última faixa etária pesquisada e apenas 5,1% dos homens continuam usando o “TU” enquanto as mulheres tiveram índices zerados 0,0%.
    Compreende-se então, que o uso do “TU” pode ter relação com a idade, o grau de instrução e a classe social a que pertence o informante, visto que com menos idade, menos instrução educacional nos temos e com o passar dos anos tendemos a avanços educacionais e por este motivo usamos a maneira mais formal e culta para se dirigir a terceira pessoa, usando o “VOCÊ” em detrimento do “TU”. Vale salientar também que tanto em Brasília como nas Regiões Administrativas o uso do “TU” prevalece.












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