RESENHA
Maraisy Guedes
O artigo intitulado “Formas de Tratamento no Português
Brasileiro: A Alternância Tu/Você na Cidade de Santos – SP”, de Artarxerxes Tiago Tácito Modesto, tem
como objeto de estudo o uso das formas de tratamento “tu” e “você” na cidade de
Santos, SP, a partir da perspectiva sociolinguística e pragmático-discursiva,
presentes no revezamento de tais formas. Pretendendo esclarecer o que leva os
falantes a optarem por uma forma, e não outra, tal artigo tem como base a
metodologia sociolinguística variacionista de Labov e as ideias funcionalistas
de Halliday, onde a análise dos dados, bem como a interpretação dos resultados
de cálculos estatísticos, se deram a partir dos resultados de cálculos de
frequência e probabilidade presentes no programa Goldvarb.
A análise da alternância entre “tu” e “você” presente no
artigo apresenta um estudo sincrônico, embasado em análises quantitativas a
partir de dados linguísticos. O autor levantou hipóteses de fatores que
possivelmente influenciem os falantes a optar por determinada forma, ao invés
da outra, em situações informais de interação. Dentre tais hipóteses, estão
presentes: o condicionamento por fatores linguísticos, discursivo-pragmáticos e
sociais na escolha de uma das formas, bem como a configuração do contexto
conversacional; a escolha pelo “tu” ser provocada por situações de [+
envolvimento], [- monitoramento] e [+ expressividade], enquanto,
contrariamente, a escolha pelo “você” ser provocada por situações de [-
envolvimento], [+monitoramento] e [- expressividade] etc.
Quanto à abordagem funcionalista utilizada no estudo, o
autor explica como se dá sua análise, quais são os seus fatores, a interação
linguística e seu objetivo. Ao escolher esta abordagem, o autor leva em conta
que o estudo da língua a ser usada precisa ter como base um quadro teórico que
considere critérios discursivo-pragmáticos, até porque é defendido no artigo
que o uso das formas de tratamento na cidade pesquisada é dependente de fatores
deste cunho. O autor explica que a teoria abordada entende a língua como
instrumento de comunicação, onde esta não pode ser considerada um objeto
autônomo, e sim uma estrutura subordinada às pressões advindas de situações
comunicativas, onde tais situações a influenciam. A opção entre “tu” e “você”
em Santos depende da configuração de fatores presentes no funcionalismo, como o
propósito do ato de fala, os participantes e o contexto discursivo. O autor
também deixa claro que não é possível entender determinado fator linguístico
sem considerar tanto o sistema social quanto o sistema linguístico que ele
pertence, onde a competência comunicativa é posta sob análise. A partir da
análise funcionalista, o autor defende que o contexto situacional é importante
para um planejamento incipiente acerca da escolha entre formas de tratamento.
Quanto aos aspectos pragmático-discursivos e
interacionais, o autor cita Levinson, que afirma que no ponto de vista
pragmático leva-se em conta a interpretação da linguagem em uma visão funcional,
como também aspectos da fala e do contexto, e nunca a língua isolada de sua
produção social. Em seguida, o autor explica como os estudos pragmáticos
enxergam os fenômenos linguísticos, citando Hilgert. A partir das sucintas
considerações feitas, o autor acredita não ser possível analisar qualquer fato
linguístico de forma isolada a seu contexto discursivo ou conversacional, e
considera que a língua é uma manifestação social que, além de contribuir para a
reprodução e transformação das estruturas sociais, também é mudada por elas.
Partindo para o modelo laboviano, é mostrado que a
variação estilística é um aspecto importante, pois trata da alternância de
formas linguísticas a partir do contexto da atuação comunicativa. O autor
elucida que a variação de estilos não se trata de uma simples escolha
individual, pois depende, em grande parte, de determinados fatores. Tais
alternativas advêm do que Labov intitula de variação estilística, que tem como
fundamento básico a ideia de que o falante não usa a língua do mesmo modo em
todas as situações. Sendo assim, aplicado ao estudo proposto, o interlocutor
precisa escolher uma forma adequada para uma ocasião específica, em um certo
contexto discursivo.
A amostra analisada no artigo é constituída por dados
coletados durante dois anos, e a partir da mesma ficou claro que a variação
entre “tu” e “você” na cidade de Santos estava presente em contextos muito
informais, tanto na fala de jovens quanto de adultos, em interações cotidianas.
Assim, o autor explica que não foi possível fazer uso de dados nos modelos
variacionistas prototípicos, já que a relação entrevistador – informante não
foi entre pares nem simétricas. O autor também discorre sobre as dificuldades
quanto ao melhor modo para coletar os dados, onde decidiu trabalhar tanto com a
possibilidade de fazer gravações secretas quanto gravações não-secretas, onde
de vinte gravações, metade foi secreta e a outra metade foi não-secreta.
Na análise de dados, o autor destacou os grupos de
fatores que foram controlados durante a pesquisa. São eles: variáveis sociais
(gênero, faixa etária e escolaridade), variável linguística (função sintática
da forma de tratamento) e variáveis discursivas (referenciação, monitoramento e
expressividade do ato comunicativo). Entretanto, de todos estes grupos, apenas
os fatores gênero e faixa etária não foram considerados relevantes para a
escolha das formas de tratamento.
Para a exposição dos cálculos estatísticos foi usada a
ordem de seleção do programa, pois o autor explica que dessa forma a
interpretação dos resultados seria mais apropriada para melhor entender como se
dá a alternância pesquisada. Em tabela, o autor colocou a quantidade de
ocorrências de “tu” e de “você”, seguida do total de ocorrências. A partir
disso, foi considerada a diferença entre a quantidade de ocorrências de “tu” e
de “você”, onde houve quase o dobro de ocorrência de “você”. O autor destaca um
fato importante para a pesquisa: apesar de “tu” ser uma marca linguística da
cidade de Santos, através da pesquisa foi possível perceber que não é esta a
preferência geral. Também foi possível notar, pelo fator variável discursivo
monitoramento da fala, que as ocasiões que envolvam menor monitoramento dos
interlocutores favorecem o aparecimento do “tu”, enquanto o contexto mais
monitorado favorece o uso de “você”, confirmando, assim, a hipótese inicial do
autor.
Os dados mostrados no artigo também deixam claro que o
uso do “tu” tem uma marca mais informal e de maior envolvimento entre os
falantes. O autor destaca que a utilização do “tu” tem uma certa inconsciência
no uso diário dos falantes. Além disso, o autor também resolveu questionar
alguns informantes sobre o uso do “tu” e do “você”, que foi, no mínimo, interessante,
pois alguns disseram não usar o “tu” comumente, como outros disseram não usar
nunca, apesar de depois alguns reconhecerem que usam ao falar com amigos ou
pessoas íntimas. A partir de tais dados, o autor mostra que o uso do “tu” se
trata de uma questão de valor social, em que o uso de tal forma pode indicar
tanto informalidade quanto “erro” na visão dos informantes.
O autor dá uma maior ênfase ao uso do “tu” em Santos
justamente por esta ser uma marca linguística da cidade, como dito
anteriormente. Assim, ele nota que, através do fator expressividade, que, por
sinal, foi um dos mais relevantes, o uso do “tu” é bastante frequente em
situações expressivas, quando o falante pretende ser mais incisivo na situação
de fala. Já o uso de “você” nestes mesmos contextos expressivos não são
favorecidos.
Quanto ao fator referenciação, o autor, sucintamente, a
partir de dados em tabela, conclui que a referência direta propicia o uso de
“tu” em contextos em que há relações de igualdade, já quanto ao “você” o uso
não é favorecido nesta mesma referenciação. Se tratando de referenciação
indireta e indeterminada, a forma “tu” não é favorecida, sendo o uso de “você”
bem mais favorecido.
Partindo
de dados quanto à função sintática da forma de tratamento, bem como pesquisa em
diferentes autores, o autor reconhece que “você” está se expandindo cada vez
mais nacionalmente, e em breve poderá até ser um pronome de segunda pessoa,
remodelando o sistema pronominal oficial brasileiro. Assim, ele completa
afirmando que a função objetiva “tu” predomina sobre as outras formas quanto à
frequência de uso, enquanto na função subjetiva, o “você” prevalece quanto aos
demais. É importante destacar que o autor procura sempre relacionar os fatores
para chegar a uma conclusão a partir dessa interligação (como, por exemplo, cruzar
o fator função sintática com o fator expressividade), sempre fazendo uma
comparação e mostrando seus resultados, como também procurou mostrar não só o
uso do “tu” e do “você, mas deixar claro que o uso do “te” também é comum em
substituição ao “você” (o autor também salienta que a forma “lhe” não ocorreu
em momento algum) como no seguinte exemplo exposto pelo próprio autor: em
Santos, as pessoas optam por falar “ai se você começar a atirar ele começa a te metralhar...”, e não “ai se você começar a atirar ele começa a metralhar você”.
Quanto ao fator escolaridade, o autor mostra a frequência
e o peso relativo do uso de “tu”, e, a partir dos dados, afirma que os falantes
com menor grau de escolarização têm mais chance de usar o “tu” em seu discurso.
Por outro lado, os falantes com maior grau de escolarização procuram evitar o
uso de tal forma.
Apesar de o fator gênero ter sido considerado irrelevante
em tal pesquisa, o autor sugere que, em Santos, é possível que haja uma
neutralização do uso de “tu” quanto ao gênero. Como possível explicação, o
autor afirma que pelo fato de, em Santos, os homens e as mulheres terem a
possibilidade de orientar sua conversação sem se limitar ao valor social, numa
relação recíproca, é possível que se dê essa neutralização. Quanto ao fator
faixa etária, que também foi considerado irrelevante, o autor realça a
importância de pensar que a alternância entre “tu” e “você” também pode ser uma
variável estável, não descartando a possibilidade de que o processo de mudança
ainda pode ser desenvolvido. É ressaltado que, a partir das reflexões feitas ao
longo do artigo, atualmente, no português de Santos, não há sinais de processo
de mudança linguística onde o “tu” possa substituir o “você” ou vice-versa.
O autor finaliza seu artigo declarando que a análise
feita tanto confirmou quanto contestou hipóteses lançadas. Ele conclui que os
falantes de Santos tem maior probabilidade em usar a forma “tu” em ocasiões
informais, porém seu uso não ultrapassa estatisticamente o uso de “você”. Ele
também conclui que a forma objetiva “te” é a mais produtiva, muitas vezes
revezando-se com “tu” e “você” em um mesmo discurso. Encerrando, vê-se que
ambas as formas permanecem bem ativas no falar de Santos, havendo uma linha
primorosa demarcando um ou outro uso, também não descartando a ideia de que,
apesar de não haver mudança em progresso, pode haver uma mudança linguística de
transição para determinada forma pronominal definitivamente.