RESENHA
Karoliny Monteiro da Silva
No artigo intitulado “A
VARIAÇÃO LINGUÍSTICA E O PAPEL DOS FATORES SOCIAIS: O GÊNERO DO FALANTE EM
FOCO”, de Maria Marta Pereira SCHERRE (Universidade Federal do Espírito Santo
(UFES)/Universidade de Brasília (UnB)/CNPq1) e Lilian Coutinho YACOVENCO (Universidade
Federal do Espírito Santo (UFES)), as autoras irão retomar discussões labovianas sobre o paradoxo do gênero em fenômenos
de variação e mudança linguística. A base principal tomada por elas são
pesquisas sobre a alternância entre tu/você nas regiões Sul, Norte, Nordeste,
Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. Elas propõem que o efeito do gênero é
orientado pelo princípio marcação.
Ao
falar sobre mudança e variação linguística, citando os autores Weinreich,
Labov e Herzog (2006 [1968]), é retomado o que esses dois autores falam sobre o
modelo sociolinguístico de 1960 onde a variação e a mudança linguística,
inerentes ao próprio sistema, podem ser controladas por restrições de caráter
interno (estrutural) ou externo (social, contextual, discursivo etc). Segundo
os autores, ao lado dos aspectos internos, os fatores externos são de suma
importância na compreensão dos fenômenos variáveis e ainda que alguns deles podem
ser os responsáveis pela variação e pela mudança linguística. É ai que são
citadas as variáveis recorrentes na análise e interpretação dos fenômenos
linguísticos variáveis.
A partir de então as autoras
iniciam uma análise sobre Labov e o que ele diz sobre o gênero em fenômenos
linguísticos variáveis. Apresentam as diferenças ditas intrigantes por Labov
sobre o gênero, as de que em mudanças com consciência social, as mulheres usam
mais as variantes de prestígio do que os homens. Mas em mudanças sem consciência
social são também as mulheres que mais usam as formas inovadoras. É apontado ai
a existência do Paradoxo do Gênero que depois Labov irá sugerir que poderia ser o Paradoxo da
Conformidade, pois segundo ele, com uma mudança no Paradoxo do
Gênero, a terminologia associada ao maior uso de variantes de prestígio
(comportamento conservador) ou ao incremento de variantes inovadoras
(comportamento progressivo) parece melhor definida como um comportamento
conformista ou não conformista.
Mas ao reestabelecer o
paradoxo em termos do contrário da conformidade, o desvio, Labov explica que o principal problema
é o porquê de mulheres com a mesma idade e da mesma classe social aderirem às
normas prescritivas em um caso e se desviarem delas em outro. Ele vai buscar respostas
para isso na identificação dos líderes da mudança linguística, a mudança
interna, natural e sistemática que Scherre e Yacovenco deixam claro ser o fator
que desafia o trabalho científico delas. Elas esclarecem ainda que o que vão
polemizar nesse trabalho são as reflexões sobre o papel do gênero nos fenômenos
linguísticos, pois identificam o duplo comportamento do gênero em um só
fenômeno variável no português brasileiro nos pronomes de segunda pessoa e
ainda embasando suas argumentações em dois outros fenômenos, o imperativo
gramatical e a concordância verbal.
Partindo para o pronome de segunda
pessoa no português brasileiro que se apresentam de maneiras bem diversas em
várias regiões do Brasil, o foco central do trabalho, segundo as autoras, são apenas
as pesquisas que se ocuparam da análise do pronome TU em alternância com
VOCÊ. Para o trabalho foram consideradas basicamente as pesquisam que focalizam
a variável gênero do falante, que são: Loregian-Penkal (2004) e Ramos (1989)
para a região Sul; Oliveira (2005; 2007) para a região Nordeste; Martins (2010)
para a região Norte; Paredes Silva (2004) e Lopes et alii (2009) para a região
Sudeste; Lucca (2005), Dias (2007) e Andrade (2010) para a região Centro-Oeste.
Segundo as autoras, a partir
desses textos elas puderam observar o efeito do gênero de forma bastante clara
na alternância entre os pronomes TU e VOCÊ, em que se destaca o duplo papel das
mulheres: ora as mulheres usam mais o pronome TU do que os homens; ora as mulheres
usam menos o pronome TU do que os homens. Isso faz lembrar a colocação de Labov
sobre o comportamento diversificado das mulheres com relação a um mesmo fenômeno
variável. Partamos então para as análises feitas por regiões.
Na região Sul foi constatado
que as mulheres tendem a usar mais o pronome TU do que os homens. Após
apresentar a síntese das pesquisas de Loregian-Penkal (2004: 14-16; 81;
136-138; 167) e de Ramos (1989: 26-35; 49-55; 64-67) em uma tabela de
percentuais foi concluído que em dois estados da região Sul, Rio Grande do Sul
e Santa Catarina, as mulheres favorecem mais o uso do TU do que os homens de
forma regular, independentemente do maior ou menor percentual médio de uso de TU
e do maior ou menor índice de concordância com o pronome TU. Exceto em Ribeirão
da Ilha, em Santa Catarina, em que há 97% de uso do pronome TU, todas as
apresentam sistematicamente aumento de TU em relação à média de uso de TU
alternando com VOCÊ.
Nas regiões Norte e Nordeste
as mulheres tendem também a usar mais o pronome TU do que os homens de forma
igualmente regular. Após ser apresentada uma tabela sobre a síntese das
pesquisas de Oliveira (2005; 2007) para a região Nordeste, no interior do
estado da Bahia, e Martins (2010) para a região Norte, no interior do estado da
Amazônia, foi possível observar que os percentuais médios de TU vs. VOCÊ na
região Nordeste são bem menores do que os percentuais da região Norte, mas as
relações referentes ao gênero dos falantes são as mesmas, com as mulheres
favorecendo mais o uso de TU. De acordo com as autoras a pesquisa de Oliveira (2005)
evidencia que há diferença de frequência de TU por localidade: nas comunidades
Sapé (22% de tu); Cinzento (19%); Helvécia (7%) e Rio de Contas (1%);
nas comunidades Santo Antônio (20% de tu) e Poções (9%), mas não
apresenta as diferenças em função do gênero por comunidade.
Nas
regiões Sudeste e Centro-oeste as pesquisas feitas por Scherre e Yacovenco em
Paredes Silva (2004) e de Lopes et alii (2009), para o Rio de Janeiro, na
região Sudeste, e as de Lucca (2005), Dias (2007) e Andrade (2010) para o
Distrito Federal, na região Centro-Oeste, revelaram comportamento contrário aos
das outras regiões, pois as mulheres tendem a usar sistematicamente menos o
pronome TU do que os homens. As autoras consideraram que O TU só se revela nos
corpora do Rio de Janeiro especialmente constituídos para capturá-lo, no
sentido metafórico do termo. Trata-se do corpus Paredes 1996, com 68%
médio de uso de TU e do corpus Lopes 2009, com 35%. Também nestes dois corpora
são as mulheres que usam menos TU. As pesquisas com dados do Distrito
Federal, nas regiões administrativas Ceilândia, Taguatinga, Plano Piloto
restrito e ampliado, em uma variedade em formação – a variedade brasiliense –
revelam também de forma sistemática que as mulheres tendem a usar menos TU do
que os homens.
A
partir dai já podemos concluir que para as pesquisas voltadas às variáveis de
gênero na região Sul, Norte e Nordeste as mulheres tendem a usar mais o pronome
TU que os homens, e nesse caso fazem um menor uso do pronome VOCÊ. Mas já nas
regiões Sudeste e Centro-oeste, no contrário das outras, as mulheres tendem a
usar sistematicamente menos o pronome Tu do que os homens. Contudo, ao observar
o fator faixa etária, as autoras constataram que a quase totalidade das pesquisas
consultadas indica que as faixas mais jovens apontam maior uso do TU, e ainda
que o fator gênero mostra também que os homens podem estar à frente das
mulheres em alguns casos, como foi notado sobre as regiões Sudeste e
Centro-oeste.
Apresentando as sínteses
sobre o pronome TU do Sul, Norte e Nordeste em contrapartida com o do Sudeste e
Cento-oeste, as autoras apresentam os resultados dizendo que na região Sul,
especificamente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, pode-se afirmar que
esse pronome é interno ao sistema e que o efeito da faixa etária, anteriormente
citado, está associado à formalidade intimidade, havendo dessa forma uma
variação estável entre as formas TU e VOCÊ. No Nordeste, no interior da Bahia e
Maranhão o pronome TU é igualmente interno ao sistema linguístico, mas na faixa
etária haver um acréscimo do pronome TU. No Norte, em Tefé e Amazônia, foi
associado por um dos autores pesquisados a uma semântica baseada na
solidariedade.
Puderam notar ainda que apesar
de haver um comportamento diferenciado entre os falantes das cidades do Sul,
Nordeste e Norte pesquisadas, em caso de variação estável (Sul) e mudança
abaixo do nível de consciência social (Norte e Nordeste), há uma tendência
notável de as mulheres usarem o pronome TU mais frequentemente do que os
homens. Porém não há uma associação clara de prestígio ou de desvio das normas pré-estabelecidas
em relação às formas TU ou VOCÊ, como dizia Labov. Elas dizem que esta
associação se dá, às vezes, à questão da não concordância com o pronome TU, mas
não claramente com a forma TU ou VOCÊ.
No geral, Scherre e
Yacovenco associam o uso mais frequente de TU por parte das mulheres nas
regiões Sul, Nordeste e Norte, quando esse pronome for um traço mais
geral ou de fácil registro e marcar a identidade geográfica dos
falantes. E associam o uso menos frequente de TU por parte das mulheres
nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, quando esse pronome for um traço menos
geral ou de difícil registro e não marcar a identidade geográfica dos falantes,
mas interação solidária ou de maior proximidade entre os falantes (logo,
os homens estão à frente, quando esse pronome for um traço mais específico,
marcando relações solidárias entre grupos mais coesos).
No segundo tópico da
pesquisa, “Fatos adicionais: o imperativo
gramatical (mudança from below) e a concordância verbal no
português brasileiro (mudança from above)”, fazendo algumas
generalizações sobre o efeito do gênero na variação e na mudança linguística a
partir dos três fenômenos anteriormente mencionados, que são os pronomes de
segunda pessoa, o imperativo e a concordância verbal, é observado que a
variação dos pronomes de segunda pessoa no português brasileiro apresenta
características diversas, a depender da comunidade analisada. Sobre a variação
do imperativo, nas pesquisas realizadas, Cardoso (2009: 108-109; Cardoso &
Scherre, a sair) observou que, ao lado da variável sócio-dentitária há também a
variável gênero, com as mulheres favorecendo mais do que os homens as formas
imperativas associadas ao indicativo. No caso da concordância verbal, a
presença de concordância nas áreas urbanas é também a forma mais recorrente em
termos médios. Além de ser a menos marcada socialmente: fazer concordância é
que o esperado pela sociedade. Neste caso, s autoras concluem que também as
mulheres estão à frente dos homens nos processos de mudança da concordância em
direção à forma menos marcada.
Por fim, no terceiro e
último tópico, “Em busca de
generalizações subjacentes ao efeito do gênero na variação e na mudança
linguística”, após serem feitas algumas proposições a partir dos três fenômenos
apresentados anteriormente, que nas generalizações é dito que em configurações
menos marcadas - e não necessariamente
mais prestigiadas - as mulheres estão à frente na variação ou na mudança. E em configurações
mais marcadas - e não necessariamente menos prestigiadas – os homens estão à
frente na variação ou na mudança. As autoras finalizam dizendo que a questão da
marcação das formas linguísticas tem de fazer parte de suas reflexões, na busca
do entendimento mais integrado da variável gênero. Segundo Labov “é o
comportamento não conformista das mulheres que faz delas as líderes da mudança,
não seu gênero.”.
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