quarta-feira, 6 de novembro de 2013

A VARIAÇÃO LINGUÍSTICA E O PAPEL DOS FATORES SOCIAIS: O GÊNERO DO FALANTE EM FOCO

RESENHA
Karoliny Monteiro da Silva

No artigo intitulado “A VARIAÇÃO LINGUÍSTICA E O PAPEL DOS FATORES SOCIAIS: O GÊNERO DO FALANTE EM FOCO”, de Maria Marta Pereira SCHERRE (Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)/Universidade de Brasília (UnB)/CNPq1) e Lilian Coutinho YACOVENCO (Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)), as autoras irão retomar discussões labovianas sobre o paradoxo do gênero em fenômenos de variação e mudança linguística. A base principal tomada por elas são pesquisas sobre a alternância entre tu/você nas regiões Sul, Norte, Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. Elas propõem que o efeito do gênero é orientado pelo princípio marcação.
Ao falar sobre mudança e variação linguística, citando os autores Weinreich, Labov e Herzog (2006 [1968]), é retomado o que esses dois autores falam sobre o modelo sociolinguístico de 1960 onde a variação e a mudança linguística, inerentes ao próprio sistema, podem ser controladas por restrições de caráter interno (estrutural) ou externo (social, contextual, discursivo etc). Segundo os autores, ao lado dos aspectos internos, os fatores externos são de suma importância na compreensão dos fenômenos variáveis e ainda que alguns deles podem ser os responsáveis pela variação e pela mudança linguística. É ai que são citadas as variáveis recorrentes na análise e interpretação dos fenômenos linguísticos variáveis.
A partir de então as autoras iniciam uma análise sobre Labov e o que ele diz sobre o gênero em fenômenos linguísticos variáveis. Apresentam as diferenças ditas intrigantes por Labov sobre o gênero, as de que em mudanças com consciência social, as mulheres usam mais as variantes de prestígio do que os homens. Mas em mudanças sem consciência social são também as mulheres que mais usam as formas inovadoras. É apontado ai a existência do Paradoxo do Gênero que depois Labov irá sugerir que poderia ser o Paradoxo da Conformidade, pois segundo ele, com uma mudança no Paradoxo do Gênero, a terminologia associada ao maior uso de variantes de prestígio (comportamento conservador) ou ao incremento de variantes inovadoras (comportamento progressivo) parece melhor definida como um comportamento conformista ou não conformista.
Mas ao reestabelecer o paradoxo em termos do contrário da conformidade, o desvio, Labov explica que o principal problema é o porquê de mulheres com a mesma idade e da mesma classe social aderirem às normas prescritivas em um caso e se desviarem delas em outro. Ele vai buscar respostas para isso na identificação dos líderes da mudança linguística, a mudança interna, natural e sistemática que Scherre e Yacovenco deixam claro ser o fator que desafia o trabalho científico delas. Elas esclarecem ainda que o que vão polemizar nesse trabalho são as reflexões sobre o papel do gênero nos fenômenos linguísticos, pois identificam o duplo comportamento do gênero em um só fenômeno variável no português brasileiro nos pronomes de segunda pessoa e ainda embasando suas argumentações em dois outros fenômenos, o imperativo gramatical e a concordância verbal.
Partindo para o pronome de segunda pessoa no português brasileiro que se apresentam de maneiras bem diversas em várias regiões do Brasil, o foco central do trabalho, segundo as autoras, são apenas as pesquisas que se ocuparam da análise do pronome TU em alternância com VOCÊ. Para o trabalho foram consideradas basicamente as pesquisam que focalizam a variável gênero do falante, que são: Loregian-Penkal (2004) e Ramos (1989) para a região Sul; Oliveira (2005; 2007) para a região Nordeste; Martins (2010) para a região Norte; Paredes Silva (2004) e Lopes et alii (2009) para a região Sudeste; Lucca (2005), Dias (2007) e Andrade (2010) para a região Centro-Oeste.
Segundo as autoras, a partir desses textos elas puderam observar o efeito do gênero de forma bastante clara na alternância entre os pronomes TU e VOCÊ, em que se destaca o duplo papel das mulheres: ora as mulheres usam mais o pronome TU do que os homens; ora as mulheres usam menos o pronome TU do que os homens. Isso faz lembrar a colocação de Labov sobre o comportamento diversificado das mulheres com relação a um mesmo fenômeno variável. Partamos então para as análises feitas por regiões.
Na região Sul foi constatado que as mulheres tendem a usar mais o pronome TU do que os homens. Após apresentar a síntese das pesquisas de Loregian-Penkal (2004: 14-16; 81; 136-138; 167) e de Ramos (1989: 26-35; 49-55; 64-67) em uma tabela de percentuais foi concluído que em dois estados da região Sul, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, as mulheres favorecem mais o uso do TU do que os homens de forma regular, independentemente do maior ou menor percentual médio de uso de TU e do maior ou menor índice de concordância com o pronome TU. Exceto em Ribeirão da Ilha, em Santa Catarina, em que há 97% de uso do pronome TU, todas as apresentam sistematicamente aumento de TU em relação à média de uso de TU alternando com VOCÊ.
Nas regiões Norte e Nordeste as mulheres tendem também a usar mais o pronome TU do que os homens de forma igualmente regular. Após ser apresentada uma tabela sobre a síntese das pesquisas de Oliveira (2005; 2007) para a região Nordeste, no interior do estado da Bahia, e Martins (2010) para a região Norte, no interior do estado da Amazônia, foi possível observar que os percentuais médios de TU vs. VOCÊ na região Nordeste são bem menores do que os percentuais da região Norte, mas as relações referentes ao gênero dos falantes são as mesmas, com as mulheres favorecendo mais o uso de TU. De acordo com as autoras a pesquisa de Oliveira (2005) evidencia que há diferença de frequência de TU por localidade: nas comunidades Sapé (22% de tu); Cinzento (19%); Helvécia (7%) e Rio de Contas (1%); nas comunidades Santo Antônio (20% de tu) e Poções (9%), mas não apresenta as diferenças em função do gênero por comunidade.
            Nas regiões Sudeste e Centro-oeste as pesquisas feitas por Scherre e Yacovenco em Paredes Silva (2004) e de Lopes et alii (2009), para o Rio de Janeiro, na região Sudeste, e as de Lucca (2005), Dias (2007) e Andrade (2010) para o Distrito Federal, na região Centro-Oeste, revelaram comportamento contrário aos das outras regiões, pois as mulheres tendem a usar sistematicamente menos o pronome TU do que os homens. As autoras consideraram que O TU só se revela nos corpora do Rio de Janeiro especialmente constituídos para capturá-lo, no sentido metafórico do termo. Trata-se do corpus Paredes 1996, com 68% médio de uso de TU e do corpus Lopes 2009, com 35%. Também nestes dois corpora são as mulheres que usam menos TU. As pesquisas com dados do Distrito Federal, nas regiões administrativas Ceilândia, Taguatinga, Plano Piloto restrito e ampliado, em uma variedade em formação – a variedade brasiliense – revelam também de forma sistemática que as mulheres tendem a usar menos TU do que os homens.
            A partir dai já podemos concluir que para as pesquisas voltadas às variáveis de gênero na região Sul, Norte e Nordeste as mulheres tendem a usar mais o pronome TU que os homens, e nesse caso fazem um menor uso do pronome VOCÊ. Mas já nas regiões Sudeste e Centro-oeste, no contrário das outras, as mulheres tendem a usar sistematicamente menos o pronome Tu do que os homens. Contudo, ao observar o fator faixa etária, as autoras constataram que a quase totalidade das pesquisas consultadas indica que as faixas mais jovens apontam maior uso do TU, e ainda que o fator gênero mostra também que os homens podem estar à frente das mulheres em alguns casos, como foi notado sobre as regiões Sudeste e Centro-oeste.
Apresentando as sínteses sobre o pronome TU do Sul, Norte e Nordeste em contrapartida com o do Sudeste e Cento-oeste, as autoras apresentam os resultados dizendo que na região Sul, especificamente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, pode-se afirmar que esse pronome é interno ao sistema e que o efeito da faixa etária, anteriormente citado, está associado à formalidade intimidade, havendo dessa forma uma variação estável entre as formas TU e VOCÊ. No Nordeste, no interior da Bahia e Maranhão o pronome TU é igualmente interno ao sistema linguístico, mas na faixa etária haver um acréscimo do pronome TU. No Norte, em Tefé e Amazônia, foi associado por um dos autores pesquisados a uma semântica baseada na solidariedade.
Puderam notar ainda que apesar de haver um comportamento diferenciado entre os falantes das cidades do Sul, Nordeste e Norte pesquisadas, em caso de variação estável (Sul) e mudança abaixo do nível de consciência social (Norte e Nordeste), há uma tendência notável de as mulheres usarem o pronome TU mais frequentemente do que os homens. Porém não há uma associação clara de prestígio ou de desvio das normas pré-estabelecidas em relação às formas TU ou VOCÊ, como dizia Labov. Elas dizem que esta associação se dá, às vezes, à questão da não concordância com o pronome TU, mas não claramente com a forma TU ou VOCÊ.
No geral, Scherre e Yacovenco associam o uso mais frequente de TU por parte das mulheres nas regiões Sul, Nordeste e Norte, quando esse pronome for um traço mais geral ou de fácil registro e marcar a identidade geográfica dos falantes. E associam o uso menos frequente de TU por parte das mulheres nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, quando esse pronome for um traço menos geral ou de difícil registro e não marcar a identidade geográfica dos falantes, mas interação solidária ou de maior proximidade entre os falantes (logo, os homens estão à frente, quando esse pronome for um traço mais específico, marcando relações solidárias entre grupos mais coesos).
No segundo tópico da pesquisa, “Fatos adicionais: o imperativo gramatical (mudança from below) e a concordância verbal no português brasileiro (mudança from above)”, fazendo algumas generalizações sobre o efeito do gênero na variação e na mudança linguística a partir dos três fenômenos anteriormente mencionados, que são os pronomes de segunda pessoa, o imperativo e a concordância verbal, é observado que a variação dos pronomes de segunda pessoa no português brasileiro apresenta características diversas, a depender da comunidade analisada. Sobre a variação do imperativo, nas pesquisas realizadas, Cardoso (2009: 108-109; Cardoso & Scherre, a sair) observou que, ao lado da variável sócio-dentitária há também a variável gênero, com as mulheres favorecendo mais do que os homens as formas imperativas associadas ao indicativo. No caso da concordância verbal, a presença de concordância nas áreas urbanas é também a forma mais recorrente em termos médios. Além de ser a menos marcada socialmente: fazer concordância é que o esperado pela sociedade. Neste caso, s autoras concluem que também as mulheres estão à frente dos homens nos processos de mudança da concordância em direção à forma menos marcada.
Por fim, no terceiro e último tópico, “Em busca de generalizações subjacentes ao efeito do gênero na variação e na mudança linguística”, após serem feitas algumas proposições a partir dos três fenômenos apresentados anteriormente, que nas generalizações é dito que em configurações menos marcadas - e não necessariamente mais prestigiadas - as mulheres estão à frente na variação ou na mudança. E em configurações mais marcadas - e não necessariamente menos prestigiadas – os homens estão à frente na variação ou na mudança. As autoras finalizam dizendo que a questão da marcação das formas linguísticas tem de fazer parte de suas reflexões, na busca do entendimento mais integrado da variável gênero. Segundo Labov “é o comportamento não conformista das mulheres que faz delas as líderes da mudança, não seu gênero.”.


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